Nota ao leitor: Este texto não oferece certezas reconfortantes nem inimigos fáceis.Exige dúvida, reflexão e algum grau de maturidade crítica.Leia por sua conta e risco.
A agressividade na linguagem quase nunca é sinal de força. Ela costuma revelar medo, insegurança e fragilidade simbólica. Václav Havel já apontava isso ao mostrar como os indivíduos, em sistemas de dominação, aprendem a obedecer não apenas por coerção, mas por conveniência, por hábito e por autoproteção. Fingem concordar, repetem fórmulas, sustentam discursos nos quais já não acreditam inteiramente, até o momento em que o fingimento deixa de valer a pena e a tabuleta já não precisa mais ser colocada na vitrine.
O Brasil vive hoje um momento em que esse mecanismo reaparece sob novas formas. Parte significativa da população, atravessando a classe média e alcançando também as camadas mais pobres, passou a aderir a um populismo de direita que se apresenta como ruptura, mas que opera como continuidade. A insatisfação social é real: há medo de empobrecimento, perda de status, instabilidade e ressentimento acumulado. No entanto, essa energia não se transforma em questionamento estrutural. Ela é capturada, simplificada e redirecionada.
Discursos agressivos, slogans prontos e inimigos abstratos oferecem a sensação de lucidez e coragem. Quem os repete acredita estar finalmente resistindo, dizendo o que “ninguém tem coragem de dizer”. Mas, na prática, o que ocorre é a troca de uma tabuleta por outra. Antes, obedecia-se a um discurso imposto de cima para baixo; agora, repete-se um discurso escolhido, embora cuidadosamente produzido por quem detém dinheiro, mídia e poder simbólico. A obediência não desaparece: apenas muda de forma. Passa a vir acompanhada da ilusão de escolha.
Essa é a engrenagem central da manipulação. As elites que por décadas mandaram, exploraram e naturalizaram a desigualdade não perderam o controle do jogo. O que perderam foi a tranquilidade. Diante de qualquer ameaça à redistribuição mínima de poder, direitos ou narrativas, entram em pânico. Em vez de governar diretamente, estimulam o conflito horizontal, transformando frustração social em ressentimento político. O foco se desloca: não se questiona quem sempre concentrou riqueza, mas quem não representa risco real ao poder.
A agressividade, nesse contexto, não emancipa. Ela anestesia. Funciona como descarga emocional que impede a reflexão mais perigosa de todas: quem ganha quando esse discurso se espalha? Quem permanece intocado quando a raiva explode na direção errada? Ao acreditar que está rompendo com o sistema, parte da sociedade acaba reforçando exatamente as estruturas que a mantêm vulnerável.
Quando o fingimento deixa de valer a pena, como sugeria Havel, algo se revela. Não a força de um novo projeto, mas o esgotamento moral de uma narrativa baseada no medo. O grito substitui o pensamento, o slogan substitui a análise, e a obediência se disfarça de liberdade. O desafio, hoje, não é gritar mais alto, é retirar a tabuleta e encarar, sem atalhos emocionais, quem realmente se beneficia do silêncio travestido de revolta.
Sergio Nóbrega Fotógrafo e Escritor

