A Nossa História Negada

O Brasil entrou no século XX carregando um passivo social que nunca foi realmente enfrentado, apenas empurrado adiante. O que hoje se chama de “polarização” ou “guerra cultural” é, na verdade, a expressão tardia de uma recusa histórica: a recusa em reconhecer uma dívida social concreta. O país aboliu a escravidão sem incluir, instaurou a República sem democratizar e modernizou sem repartir. As políticas de ação afirmativa, como as cotas nas universidades, não nascem de ideologia, mas da ausência dela no passado, são respostas tardias a um Estado que sempre tratou a desigualdade como efeito colateral aceitável.

O discurso contra o chamado “Estado assistencialista” ignora um dado elementar: no Brasil, a assistência nunca foi excesso, sempre foi remendo. Quem ataca cotas raramente questiona heranças, privilégios fundiários, acesso histórico à educação ou redes de poder que atravessam gerações. Defende-se meritocracia num país que jamais ofereceu ponto de partida semelhante. É uma moral seletiva, construída para proteger privilégios herdados sob a aparência de neutralidade.

Essa recusa ganha contornos regionais, mas não se limita a eles. No Sul, especialmente em Santa Catarina, ela se converte em política pública explícita: ao proibir cotas, o Estado não afirma igualdade, reafirma desigualdades. Apaga deliberadamente o fato de que sua própria formação contou com fluxos humanos, recursos e trabalho vindos de outras regiões, sobretudo do Nordeste, que garantiram a infraestrutura material para a consolidação de colônias, cidades e economias locais. Cria-se, assim, a fantasia de uma origem autossuficiente, branca e europeia, sustentada por uma amnésia histórica funcional ao presente.

Mas essa lógica não é exclusividade do Sul. Em cidades como Fortaleza, onde a miscigenação é visível no rosto, no corpo e na cultura, opera uma contradição igualmente violenta e silenciosa. A proximidade simbólica com a branquitude ainda confere valor social. Não se trata apenas de cor da pele, mas de um sistema de hierarquias herdado, internalizado e reproduzido cotidianamente, muitas vezes por quem também foi moldado por essa mistura que tenta negar.

A miscigenação, que deveria ser força identitária, foi capturada por um projeto histórico de “branqueamento” social. Ser mestiço claro, “mais branco que o outro”, converteu-se em capital simbólico. É o colorismo organizando acessos, respeitabilidade e pertencimento. Em Fortaleza, isso se manifesta de forma banal e cotidiana: nos bairros frequentados, nos sobrenomes valorizados, nos corpos aceitos, nos sotaques suavizados. Pessoas de origem mestiça, ao ascenderem economicamente, passam a se ver acima das demais, como se a renda pudesse reescrever a própria história corporal.

Tudo isso se sustenta no mito da democracia racial. Ninguém se diz racista, mas muitos se comportam como herdeiros legítimos de uma superioridade invisível. A hierarquia não é declarada; é insinuada. Não é violenta no discurso; é excludente na prática. É o racismo que se disfarça de gosto pessoal, de padrão estético, de “bom senso”.

A esse quadro soma-se o eurocentrismo crônico das elites locais. A valorização quase fetichista da cultura europeia e norte-americana, do consumo às referências simbólicas, revela um profundo desconforto com a própria origem. O Nordeste vira “folclore”; o estrangeiro, sinônimo de sofisticação. É o velho complexo de vira-lata operando como distinção de classe: quanto mais distante do que é popular, negro, indígena ou nordestino, mais próximo se estaria da ideia de sucesso.

O paradoxo é cruel. Muitos dos que hoje desprezam suas raízes vieram de histórias humildes, de famílias marcadas pela exclusão e pelo trabalho duro. Mas, ao subir alguns degraus sociais, passam a negar o chão de onde vieram. Reconhecer a própria mestiçagem passa a ser visto como risco, como ameaça simbólica de retorno à base da pirâmide. A negação da ancestralidade vira estratégia de autopreservação.

O resultado é um país que celebra a mistura no discurso, mas a hierarquiza na prática; que fala em igualdade enquanto organiza privilégios; que acusa o “assistencialismo” enquanto protege heranças históricas intocáveis. Nesse vazio de responsabilidade histórica, floresce a crise social atual: ressentimento travestido de moral, preconceito vendido como opinião e desigualdade justificada em nome da eficiência.

A crise que vivemos não é nova, é apenas a reaparição de problemas nunca resolvidos. Enquanto o Brasil continuar tratando a questão social como concessão e não como obrigação, seguirá produzindo elites frágeis, ansiosas por distinção e profundamente dependentes da negação do outro.

Lembrando que este texto não é apenas um desabafo, uma exposição da realidade. Eu sou nordestino, eu sou miscigenado e bruto o suficiente. E a partir disso, eu crio não exatamente uma crítica, mas um grito, um grito para tentar mudar a nossa história. Digo isso como nordestino, morador de Fortaleza, não por abstração, mas por vivência: eu vi e ouvi, no convívio cotidiano, pessoas que, apesar de carregarem no corpo a marca evidente da mistura brasileira, sentem-se autorizadas a se colocar acima das outras, a exercer um preconceito confortável, quase inconsciente, como se fossem “brancas demais”. E é exatamente essa negação da própria história e dessa mestiçagem que construiu o Brasil, somada à ideia de que a cultura estrangeira, europeia ou americana, é sempre melhor que a nossa, que mantém viva a desigualdade.

 A esse vira-Latas,  @#$%ˆ&*!!

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