Eu cruzo quase todos os dias com dois palhaços nos sinais da cidade. Às vezes quando levo minha esposa ao trabalho, às vezes a caminho do jiu-jitsu. Eles estão sempre ali: malabarismo simples, nariz vermelho, roupa gasta, pedindo moedas no tempo suspenso do semáforo. O curioso não é o pedido. É a alegria.
Hoje, com a chuva pesada caindo sobre Fortaleza, vi um deles dançando no meio da água, como se aquele aguaceiro fosse palco e não obstáculo. Não era alegria performática apenas, havia algo de inteiro naquele corpo em movimento, como se, por alguns instantes, ele estivesse exatamente onde precisava estar.
E isso me atravessou.
A gente costuma tratar a felicidade como prêmio: algo que vem depois da conquista, depois do dinheiro, depois do reconhecimento, depois da “vontade de Deus”. Como se primeiro fosse preciso vencer, para só então autorizar-se a viver. Mas aqueles palhaços parecem inverter a lógica: eles vivem antes. A felicidade não aparece como resultado; aparece como condição mínima para continuar.
Daí surge a pergunta incômoda: a felicidade é uma forma de motivação que você precisa fabricar para seguir adiante? Não como ingenuidade, mas como estratégia de sobrevivência?
Muita gente deposita essa motivação no além. “Se Deus quiser.” “Vai acontecer na hora certa.” “Está nas mãos de algo maior.” Para muitos, isso funciona, e funciona mesmo. A fé, quando viva, sustenta, organiza o caos, dá sentido ao sofrimento. O problema não é a fé. O problema é quando ela vira adiamento da própria ação. Quando tudo fica para depois, para fora, para o céu.
E quando não acontece?
E quando você olha em volta e percebe que Deus, ou o destino, ou o universo, não está resolvendo do jeito que prometeram?
Aí sobra você.
Talvez esses palhaços não sejam exemplo de felicidade plena, nem de superação romântica. Talvez eles saibam, melhor do que muitos de nós, que esperar condições ideais é uma forma elegante de desistir. Que, sem algum grau de alegria fabricada no presente, o futuro nunca chega.
Nesse sentido, a felicidade deixa de ser sentimento e vira ato. Um gesto quase político: dançar na chuva, sorrir no sinal, continuar existindo apesar da precariedade. Não porque a vida é fácil, mas porque sem isso ela fica insuportável.
Para quem não acredita em deuses, ou para quem acredita, mas está cansado de esperar, a motivação não cai do céu. Ela é construída no corpo, no hábito, no pequeno movimento que diz: eu ainda estou aqui. Não é esperança abstrata; é insistência concreta.
Talvez a grande ilusão seja pensar que a felicidade precisa de justificativa. Que só é legítima quando tudo está resolvido. Aqueles palhaços parecem ensinar o contrário: às vezes, a felicidade é o que mantém o mundo minimamente respirável enquanto nada se resolve.
E talvez, no fim das contas, motivação não seja acreditar que vai dar certo, mas agir como se a vida, apesar de tudo, ainda merecesse ser vivida agora. Mesmo no sinal. Mesmo na chuva. Mesmo sem promessa.
