Existe uma mentira confortável que repetimos diante do espelho: “é só roupa”. Não é. Nunca foi. Roupa é discurso silencioso. É a primeira frase que o corpo pronuncia quando entra em cena.
O ser humano é político não apenas quando fala de ideologia, mas quando ocupa espaço. E ocupar espaço é disputar sentido. O vestir acontece exatamente nesse intervalo: entre o corpo e o olhar do outro, entre o indivíduo e o sistema. Não existe neutralidade estética. A aparência sempre toma partido, inclusive quando tenta parecer neutra.
Durante décadas, a moda industrial trabalhou para apagar essa dimensão. O fast fashion não vende apenas roupas baratas; ele vende apagamento simbólico. Ao repetir formas, cores e gestos em escala massiva, dilui a singularidade do corpo e transforma o vestir em ruído. Quanto mais rápido, mais igual. Quanto mais igual, menos conflito. Menos conflito, mais controle.
É nesse esgotamento que surge, com força crescente e clara projeção para 2026, a valorização de roupasfeitas à mão, exclusivas, personalizadas, cheias de detalhe. Não como fetiche artesanal, mas como reação. Essas peças devolvem ao corpo aquilo que a produção em massa retirou: tempo, autoria e decisão. Vestir deixa de ser adesão automática e volta a ser escolha.
A roupa exclusiva não grita ideologia, mas recusa o silêncio imposto. Ela afirma que aquele corpo não aceita ser apenas mais um suporte para tendências genéricas. Ao carregar marcas do fazer humano, imperfeições, singularidades, variações —, ela reinscreve o sujeito no centro da cena. Não é nostalgia. É posicionamento.
Toda roupa comunica classe, gênero, desejo, medo, pertencimento. Mas quando a roupa é pensada, feita lentamente, fora da lógica do descarte, ela comunica algo a mais: presença. Ela diz “eu estou aqui”, num sistema que prefere corpos previsíveis e esteticamente domesticados.
Talvez por isso a geração mais nova cause tanto desconforto. Confunde-se falta de vontade com recusa. Recusa de se entregar por inteiro a empresas, marcas e estilos que não devolvem sentido algum. Vejo isso no modo como minha filha se veste: não é descuido, é ensaio. Em meio ao excesso de opções descartáveis, ela busca peças que permaneçam. Não estabilidade, mas identidade possível.
O fast fashion oferece milhares de escolhas e, paradoxalmente, elimina o estilo. A roupa feita à mão faz o oposto: restringe, desacelera e, justamente por isso, significa.
O corpo fala. Sempre falou.
A pergunta nunca foi se vestir é um ato político.
A pergunta é como, e a favor de quem, esse corpo decide falar hoje.
E talvez a resposta esteja menos nas vitrines abarrotadas
e mais nas roupas que carregam o tempo, a mão e a intenção de quem as fez.
Observação final.
Talvez esse retorno ao feito à mão não seja exatamente novidade. Minha avó já fazia isso muito antes de virar tendência. Costureira, sustentou a família inteira diante de uma máquina, dessas antigas, pesadas, barulhentas, criando roupas personalizadas para gente da sociedade de Fortaleza, quando vestir ainda era gesto, não volume. Nas férias, eu ficava ali, no chão, aos pés dela, entre retalhos e linhas, jogando futebol de botão. O goleiro era uma caixa de fósforo, as traves improvisadas, e o jogo acontecia enquanto ela trabalhava. O fast fashion ainda não tinha nome, mas quando chegou, levou com ele esse mundo: o tempo, a mão, a autoria. Chamaram de progresso. Hoje, curiosamente, esse mesmo gesto retorna como desejo. Talvez porque o que foi apagado nunca deixou de fazer falta.
