O Que Shakespeare (Ainda) ensina ao Mundo em 2026

Há 400 anos, William Shakespeare escreveu um dos textos mais viscerais sobre a experiência humana: o monólogo de Sir Thomas More sobre os “estrangeiros”. Hoje, em 2026, vivemos em um mundo de hiper conexão, mas as fronteiras, tanto físicas quanto mentais, parecem mais rígidas do que nunca. O que o “Bardo” tem a nos dizer sobre o agora?

O Discurso aos rebeldes

“Imaginem que vocês veem os pobres estrangeiros, com seus bebês nas costas e suas pobres bagagens, chegando aos portos e costas para o transporte, e que o governo, agindo com misericórdia e obediência à lei, tivesse de lhes dar abrigo; e imaginem que vocês, por meio de vossas mãos, Pudessem expulsá-los. Pois bem, imaginem que vocês agora são os reis; E que um rei, cedendo ao vosso clamor turbulento, Banisse todos eles. Que teria ele feito? Ele teria apenas ensinado a outros súditos o caminho Para que, por meio da força, eles pudessem fazer o mesmo com vocês. Pois que país, pela natureza do seu erro, deveria dar-lhes abrigo? Vão para a França ou Flandres, para qualquer província alemã, para a Espanha ou Portugal, sim, para qualquer lugar que não siga o costume inglês; Lá, vocês serão necessariamente estrangeiros. Gostariam de encontrar uma nação de temperamento tão bárbaro que, em uma violência faminta, não lhes desse lugar para viver, Mas afiasse suas facas detestáveis contra suas gargantas, Repulsando-os como se fossem cães, e como se vocês não fossem criados pelo mesmo Deus que eles, nem fossem Seus súditos? como se sentiriam ao serem usados assim? Pois esta é a condição de estrangeiro; E esta é a vossa desumanidade bárbara.”

Shakespeare sob a ótica do paradoxo que vivemos hoje, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, precisamos olhar para a contradição entre o que essas nações pregam (liberdade, direitos humanos, democracia) e como elas agem na prática em suas fronteiras.O paradoxo reside no seguinte: As nações que mais se orgulham de sua “civilidade” são as que recorrem a métodos “bárbaros” (nas palavras de Shakespeare) para excluir o outro.

​Aqui está a análise desse paradoxo dividida em três pontos fundamentais:

​1. O Paradoxo da Liberdade Exclusiva

​Os Estados Unidos se apresentam como a “Terra da Liberdade”, e a Europa como o berço dos Direitos Humanos. No entanto, o paradoxo atual é que essa liberdade parece ter um “limite geográfico”.​No texto de Shakespeare: More questiona como as pessoas podem clamar por “ordem” enquanto promovem o caos da violência contra o imigrante.Hoje: Países que defendem a globalização econômica (o livre fluxo de dinheiro e mercadorias) são os mesmos que levantam muros físicos e burocráticos contra o fluxo de seres humanos. É a contradição de querer um mundo aberto para o lucro, mas fechado para a vida.

​2. O Paradoxo da Herança (A “Memória Curta”)

​Este é o ponto mais forte nos EUA e na Europa. Quase todos os cidadãos dessas regiões são descendentes de imigrantes ou de colonizadores que um dia foram “estrangeiros” em terras alheias.​No texto de Shakespeare: More diz: “Imaginem-se indo para a França ou Flandres… lá vocês seriam necessariamente estrangeiros”.Hoje: Nos EUA, uma nação construída inteiramente por imigrantes, o paradoxo é ver descendentes de pessoas que fugiram da fome ou da guerra repudiando quem chega hoje na mesma situação. Eles “afiam as facas” contra uma imagem espelhada do seu próprio passado. Na Europa, países que colonizaram o mundo agora repudiam os povos que vêm justamente das terras que eles desestruturaram no passado.

​3. O Paradoxo da Segurança pela Violência

​Muitos políticos hoje argumentam que repelir estrangeiros é necessário para “manter a paz e a segurança nacional”.No texto de Shakespeare: More destrói esse argumento dizendo que, ao ensinar a violência contra o estrangeiro, você está ensinando o crime a seus próprios filhos. Se a força bruta vence a lei, ninguém; nem mesmo o cidadão nativo, estará seguro amanhã.

​Hoje: Ao criar zonas de “não-direito” nas fronteiras (campos de detenção, separação de famílias), essas democracias ferem as leis que dizem proteger. O paradoxo é: para “salvar” a civilização, eles abrem mão dos valores que os tornam civilizados.O paradoxo que aparece nas fronteiras da Europa e dos Estados Unidos, países que se afirmam como guardiões da liberdade, dos direitos humanos e da democracia, mas que endurecem, excluem e desumanizam quando o “outro” chega,  não é externo a nós. Ele encontra no Brasil um espelho desconfortável.

O Brasil é um país formado por misturas, encontros forçados e voluntários, sobreposições de povos e violências históricas. Território tomado, corpos explorados, culturas silenciadas. Nada aqui nasce puro, nada nasce isolado. A ideia de origem limpa é uma ficção conveniente.E, ainda assim, repetimos o gesto do colonizador: criamos fronteiras simbólicas dentro do próprio país.Quando uma parte do Sul do Brasil rejeita o Nordeste, não se trata de diferença cultural,  trata-se de hierarquia imaginada. Como se alguns brasileiros fossem mais legítimos que outros. Como se alguns tivessem chegado “primeiro”, ignorando que muitos dos fluxos migratórios europeus foram incentivados, financiados e sustentados com riqueza produzida em outras regiões do país, inclusive no Nordeste.

O discurso muda, mas a lógica é a mesma:

“Eles não pertencem.”

“Eles ameaçam.”

“Eles tiram.”

É exatamente aí que o texto de Shakespeare, escrito há mais de quatro séculos, se encaixa com precisão quase cruel no Brasil contemporâneo.

Quando Shakespeare dá voz ao medo do estrangeiro, ele não está falando apenas de passaportes ou fronteiras físicas. Ele fala do mecanismo moral da exclusão: a incapacidade de reconhecer no outro a mesma humanidade que se reivindica para si. O estrangeiro, no texto, é sempre aquele que incomoda a ordem, que revela a fragilidade das certezas, que desmonta a fantasia de superioridade.No Brasil, o nordestino ocupa muitas vezes esse lugar simbólico. Não é estrangeiro, mas é tratado como se fosse. Não atravessa fronteiras nacionais, mas cruza fronteiras sociais invisíveis. É alvo do mesmo medo, do mesmo desprezo, da mesma caricatura.

Santa Catarina, frequentemente evocada como “estado branco”, “europeu”, “diferenciado”, não foge a essa contradição. A tentativa de se afastar do restante do país, de se afirmar como exceção civilizatória, reproduz o mesmo gesto que a Europa pratica ao se fechar para refugiados: a crença de que a identidade se protege excluindo, e não reconhecendo.O texto de Shakespeare, então, não fala apenas da Inglaterra do século XVI. Ele fala do Brasil quando o Brasil escolhe esquecer sua própria história. Quando um país mestiço, plural e profundamente desigual passa a agir como se tivesse direito à pureza, à superioridade ou à indiferença.

No fundo, o paradoxo é o mesmo em todos os lugares:

defender valores universais enquanto se nega a humanidade concreta do outro.

Shakespeare não oferece uma solução. Ele oferece um espelho.

E o que esse espelho mostra, no Brasil, hoje, ainda nos constrange.

O texto de Shakespeare de 400 anos atrás é um aviso de que o ódio ao estrangeiro é um bumerangue. Ao legitimar o desprezo ao outro, seja nas fronteiras dos Estados Unidos e da Europa, seja dentro do próprio Brasil, valida-se um mundo em que a força econômica, racial ou simbólica se sobrepõe à empatia. Quando um país formado por migrações passa a tratar parte de sua própria população como estrangeira, ele repete o mesmo nacionalismo agressivo que diz condenar e revela um esquecimento perigoso de seus princípios mais básicos de humanidade.

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