“Ignorance more frequently begets confidence than does knowledge.”

Charles Darwin


Houve um tempo em que a ignorância era um constrangimento. As pessoas não que sabiam alguma coisa, ficavam em silêncio, perguntavam, tentavam aprender. O desconhecimento era visto como um limite a ser superado.
Hoje acontece o contrário. A ignorância virou método. Virou performance. Virou até estratégia de poder.
Outro dia me lembrei de um filme, planeta dos macacos, com Charlton Heston; meu pai adorava as atuações desse ator. No filme, os humanos acabam dominados por macacos que organizam uma sociedade inteira baseada em dogmas, hierarquias e certezas absolutas. A ciência é reprimida, a dúvida é punida, e o pensamento crítico vira ameaça.
Na época em que assisti aquilo pela primeira vez, ainda criança, parecia uma fantasia exagerada. Uma alegoria sobre regressão civilizatória. Uma metáfora improvável.
Hoje a metáfora parece menos absurda.
Vivemos uma era em que nunca houve tanto acesso à informação — e, paradoxalmente, nunca foi tão fácil viver cercado de desinformação. A tecnologia que prometia democratizar o conhecimento também democratizou o ruído. Todo mundo fala. Quase ninguém escuta. Opinião virou substituta de estudo. Convicção virou substituta de argumento.
No Brasil, isso aparece de forma particularmente dramática. O debate público foi sequestrado por slogans, ressentimentos e certezas rasas. A política se tornou espetáculo emocional. A discussão sobre problemas reais; desigualdade, educação, ciência, desenvolvimento, frequentemente é soterrada por guerras culturais que produzem mais barulho do que pensamento.
Mas não é só aqui. Em várias partes do mundo cresce uma espécie de orgulho da ignorância. Uma desconfiança quase automática contra o conhecimento, contra universidades, contra especialistas, contra qualquer forma de reflexão mais elaborada.
É como se pensar fosse suspeito.
Nesse ambiente, a ignorância não apenas sobrevive; ela prospera. Ela mobiliza massas, cria identidades e alimenta algoritmos. Quanto mais simples a explicação, mais viral ela se torna. Quanto mais simplista o raciocínio, mais engajamento ele gera.
E assim vamos construindo um tempo curioso: nunca tivemos tantas bibliotecas digitais, tantas universidades, tantos dados disponíveis , e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade coletiva de transformar informação em compreensão.
Talvez a ficção científica nunca tenha falado apenas sobre o futuro. Talvez ela sempre tenha sido um espelho exagerado do presente.
E olhando para o mundo de hoje, uma frase parece resumir bem este momento histórico:
A ignorância nunca foi tão produtiva.

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