A contradição moral do liberalismo econômico.

O discurso liberal costuma invocar Adam Smith como patrono moral do mercado autorregulado, mas raramente enfrenta sua obra com honestidade. Smith jamais defendeu um capitalismo indiferente ao sofrimento social. Ao contrário: para ele, nenhum sistema econômico poderia ser considerado saudável se produzisse miséria generalizada. A “mão invisível” não era um salvo-conduto para a desigualdade, mas uma metáfora limitada, que pressupunha concorrência real, ausência de monopólios e algum grau de equilíbrio social exatamente o oposto do capitalismo concentrado de hoje.

Já Keynes desmonta de forma ainda mais direta o mito da austeridade seletiva. Para ele, o Estado não só pode como deve intervir quando o mercado falha, especialmente em momentos de desemprego e retração econômica. O paradoxo é evidente: quando o Estado injeta bilhões para salvar bancos, grandes empresas ou setores inteiros da economia, isso é chamado de “responsabilidade fiscal”. Mas quando se propõe um cheque de auxílio para garantir sobrevivência básica a quem perdeu o emprego, a mesma intervenção passa a ser tratada como “populismo”, “assistencialismo” ou “socialismo”.

A Escola de Chicago, referência da direita econômica moderna, constrói sua crítica à ajuda social com base na ideia de incentivos: ajudar pessoas pobres geraria acomodação, preguiça e ineficiência. O problema é que essa lógica não é aplicada aos grandes conglomerados. Empresas socorridas repetidamente pelo Estado não são acusadas de dependência estrutural, nem de distorcer o mercado, mesmo quando vivem de renúncia fiscal, crédito subsidiado e perdão de dívidas. Aqui, o rigor ideológico desaparece.

Esse é o ponto em que a teoria se contradiz. Se o mercado deve punir os ineficientes, por que os maiores agentes econômicos nunca quebram? Se a ajuda estatal corrompe incentivos, por que isso só vale para o indivíduo pobre e nunca para o capital concentrado? O que se apresenta como defesa do “livre mercado” acaba sendo, na prática, a defesa de um capitalismo tutelado para os de cima e disciplinador para os de baixo.

No Brasil, essa contradição aparece com clareza no discurso de economistas liberais contemporâneos, como Paulo Guedes. A retórica da austeridade, do “Estado mínimo” e da responsabilidade fiscal sempre encontra exceções quando se trata de bancos, grandes empresários e setores estratégicos. Já políticas de transferência de renda, mesmo amparadas por evidências empíricas e pela própria Constituição brasileira, que estabelece a dignidade humana e a redução das desigualdades como objetivos do Estado, são tratadas como desvios ideológicos.

No fim, não se trata de esquerda versus direita, mas de coerência intelectual. Um sistema que naturaliza a ajuda bilionária ao capital e demoniza a ajuda mínima ao trabalhador não está defendendo eficiência econômica, mas preservando hierarquias sociais. Chamar isso de liberdade de mercado é um erro conceitual. Ou pior: uma escolha política travestida de teoria econômica.

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