Dostoiévski no século XXI, O homem do subsolo no capitalismo financeiro.

A coletividade como nova figura atormentada.

Se Dostoiévski observasse o mundo de hoje, dificilmente veria novidade na forma, mas reconheceria um agravamento na intensidade. O capitalismo contemporâneo, sobretudo o financeiro e neoliberal, lhe pareceria a radicalização de uma velha ilusão: a crença de que a vida humana pode ser totalmente governada pelo cálculo, pela eficiência e pelo lucro, agora em escala global, abstrata e impessoal.

O capitalismo que Dostoiévski criticava ainda tinha rosto: o burguês, o funcionário, o racionalista otimista do século XIX. O capitalismo atual, ao contrário, opera como um sistema quase metafísico. O dinheiro já não circula apenas na produção, mas se reproduz no próprio dinheiro; o valor se descola do trabalho, do corpo e da experiência concreta. Para Dostoiévski, isso soaria como a vitória final de uma razão sem alma, uma razão que já não promete felicidade, apenas desempenho.

O neoliberalismo, com seu discurso de responsabilidade individual e meritocracia, provavelmente lhe pareceria uma forma sofisticada de crueldade moral. Não se trata apenas de explorar economicamente os mais pobres, mas de culpabilizá-los por sua própria miséria. Se você fracassa, a culpa é sua; se sofre, é porque não se esforçou o suficiente. Aqui, o “homem do subsolo” deixaria de ser uma exceção psicológica e passaria a ser uma condição social generalizada: milhões de indivíduos esmagados por expectativas impossíveis, interiorizando o fracasso como defeito moral.

Dostoiévski enxergaria com clareza a violência simbólica desse sistema imposto aos países mais pobres. O neoliberalismo não chega como escolha, mas como imposição: reformas, austeridade, cortes, desmontes do Estado. Tudo em nome de um lucro que nunca se materializa para quem vive na base da pirâmide. O sofrimento deixa de ser um acidente e passa a ser método. Para ele, isso seria a institucionalização do desprezo pela fragilidade humana.

A ascensão da extrema-direita, sobretudo aquela que governa para os ricos enquanto fala em nome do “povo”, provavelmente seria vista como um sintoma dessa mesma lógica. Dostoiévski sempre desconfiou de discursos que prometem ordem, moralidade e grandeza enquanto aprofundam desigualdades. Ele perceberia o cinismo de um projeto que defende o lucro como valor supremo, mas se veste de tradição, religião e nacionalismo para justificar a exclusão dos mais pobres.

Nesse ponto, o Brasil lhe pareceria um caso exemplar, e trágico. A negação do passado escravocrata, o apagamento da violência estrutural, a recusa em reconhecer que a pobreza tem cor, história e herança, seriam para Dostoiévski formas de mentira moral. Não se trata apenas de ignorância histórica, mas de uma escolha ativa por não ver. Ao suspender políticas de reparação e inclusão, o sistema reafirma a lógica do subsolo: empurra os mesmos corpos para fora da luz, enquanto afirma que todos competem em igualdade.

Dostoiévski entenderia que essa negação não é neutra. Ela serve ao mesmo princípio que atravessa o capitalismo financeiro: preservar privilégios sob a máscara da racionalidade. Reconhecer o passado escravocrata exigiria admitir que o “jogo” nunca foi justo, e isso colocaria em risco a narrativa meritocrática que sustenta o lucro dos vencedores.

Se estivesse vivo, Dostoiévski talvez dissesse que o homem do subsolo deixou de ser apenas um indivíduo atormentado e se tornou uma figura coletiva. Um sujeito que sente, confusamente, que algo está errado, mas não encontra linguagem política ou moral para expressar seu mal-estar. Ressentido, ele pode tanto se voltar contra o sistema quanto ser capturado por discursos autoritários que oferecem inimigos fáceis e soluções falsas.

O que mais o inquietaria, porém, não seria a existência do sofrimento, Dostoiévski nunca acreditou num mundo sem dor, mas a tentativa de normalizá-lo, justificá-lo e torná-lo lucrativo. Um capitalismo que não apenas convive com o sofrimento humano, mas o transforma em engrenagem, estaria, para ele, muito próximo de um colapso espiritual.

No fim, Dostoiévski provavelmente repetiria, em novas palavras, a mesma advertência: qualquer sociedade que organize tudo em torno do lucro, ignorando a contradição, a memória e a dignidade humana, acabará produzindo sujeitos quebrados, e chamando isso de sucesso.

Compartilhe este artigo:

Artigos relacionados