Quando a direita econômica fala em “liberdade de mercado”, costuma usar termos técnicos como equilíbrio fiscal, contas públicas em ordem e redução do tamanho do Estado. O discurso soa bonito: menos regulação, mais crescimento, estabilidade e prosperidade. Mas o que acontece no cotidiano das pessoas que vivem de trabalho e salário muitas vezes é outra realidade, uma vida cada vez mais cara e com menos poder de compra.
Liberdade de mercado, na prática, significa muitas vezes menos intervenção do Estado na economia, menos subsídios, menor regulação de preços e menos programas sociais. Isso pode gerar indicadores macroeconômicos “bonitos”, como superávit fiscal ou redução de inflação, mas se o salário real das pessoas não acompanha o aumento do custo de vida, o trabalhador simplesmente não consegue viver bem com o que ganha.
Trabalhadores em muitas economias desenvolvidas enfrentam esse problema: mesmo com crescimento econômico ou estabilidade aparente, os salários reais não acompanham o aumento dos preços de itens básicos como alimentação, aluguel e saúde. Isso empurra famílias para situações precárias, muitas vezes mesmo em países ricos.
A Argentina tem sido palco de uma das experiências mais intensas dessa lógica econômica. O governo liderado por Javier Milei implementou um pacote radical de austeridade e liberalização, retirando subsídios, cortando gastos públicos e enfraquecendo diversas proteções estatais enquanto tentava estabilizar a economia e controlar a inflação.
Apesar de alguns indicadores oficiais apontarem redução da inflação e queda na taxa de pobreza em certos períodos, muitos argentinos relatam que a vida cotidiana continua extremamente difícil. Estudos recentes mostram que cerca de 72% dos trabalhadores argentinos não conseguem comprar a cesta básica com seus rendimentos, com salários abaixo do necessário mesmo em empregos formais.
A retirada de subsídios e outras medidas de ajuste fizeram com que tarifas de serviços básicos, combustíveis e alimentos consumissem uma fatia maior do orçamento das famílias, enquanto os salários reais estagnavam ou mal acompanham esses aumentos.
Quando o Estado reduz sua atuação na economia sob o argumento de aumentar a liberdade de mercado, a proteção social também costuma ser enfraquecida. Programas de auxílio, subsídios a transporte ou energia, políticas de salário mínimo, tudo isso pode ser cortado ou reduzido em nome do ajuste fiscal. O resultado? Famílias com renda já baixa ficam ainda mais vulneráveis.
Mesmo em países europeus com políticas mais conservadoras, como a Itália nos últimos anos, o foco em contenção de gastos contribuiu para salários estagnados, mercados de trabalho rígidos e crescente número de “trabalhadores pobres”, pessoas que trabalham mas não ganham o suficiente para viver confortavelmente.
No discurso político, a ideia de liberdade econômica sugere que, ao reduzir barreiras e custos para o mercado, todos acabarão se beneficiando — inclusive os trabalhadores. Mas na prática, sem mecanismos fortes de redistribuição de renda, a maior parte dos benefícios acaba nas mãos de uma minoria privilegiada: grandes empresas, setores financeiros e elites econômicas que já detêm riqueza e capital.
Enquanto isso:
- Trabalhadores veem seus salários perderem poder de compra;
- Serviços públicos essenciais sofrem cortes;
- A desigualdade de renda aumenta.
Isso não é apenas uma crítica ideológica: é um padrão que aparece em análise de diferentes economias que priorizam austeridade fiscal e mercados ultraliberais.
A retórica de liberdade de mercado pode até atrair investidores e melhorar alguns indicadores macroeconômicos, mas a economia real funciona na vida das pessoas, no café da manhã, no aluguel a pagar, no remédio no fim do mês.
Sem um Estado fortalecido que regule mercados, proteja trabalhadores e mantenha políticas sociais que garantam condições mínimas de vida, a chamada “liberdade econômica” rapidamente se torna uma limitação da liberdade material para quem depende de salário.
Não é apenas uma questão de números: é uma questão de dignidade humana. Porque liberdade que não permite comprar comida, pagar aluguel ou cuidar da saúde não é liberdade, é desigualdade.
Nos países cuja economia depende fundamentalmente do consumo das famílias, como o Brasil, essa lógica se torna ainda mais destrutiva. Quando o salário é comprimido em nome da chamada “estabilidade macroeconômica” e da liberdade irrestrita de mercado, as famílias deixam de consumir o básico, a demanda interna encolhe e a engrenagem econômica começa a falhar. Menos consumo significa queda na produção, retração da indústria, fechamento de postos de trabalho e redução da arrecadação, instaurando um círculo vicioso de empobrecimento e crise. Essa contradição já foi amplamente discutida por economistas de diferentes épocas. Adam Smith, frequentemente apropriado pelo discurso liberal, reconhecia que salários excessivamente baixos comprometem a própria dinâmica do mercado. No século XX, John Maynard Keynes demonstrou que economias baseadas no consumo entram em colapso quando a renda das famílias é comprimida, pois a queda da demanda efetiva paralisa a produção e amplia o desemprego, ideia aprofundada por Michal Kalecki, ao afirmar que salários não são apenas custo, mas motor da demanda. No pensamento contemporâneo, economistas como Joseph Stiglitz, Thomas Piketty e Ha-Joon Chang mostram que austeridade excessiva, concentração de renda e enfraquecimento do Estado não geram crescimento sustentável, mas instabilidade e desigualdade. O que todos esses autores evidenciam, em comum, é que não existe mercado saudável sustentado por salários insuficientes: sem renda popular, não há consumo; sem consumo, não há indústria; e sem indústria, não há estabilidade possível. O que se vende como equilíbrio fiscal acaba, na prática, produzindo instabilidade social, pressão inflacionária e um caos econômico que recai justamente sobre quem vive do trabalho
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