Este texto é um recorte do meu olhar sobre a construção do machismo ao longo da história.Não é uma verdade absoluta, mas uma tentativa de compreender as raízes profundas que ainda nos atravessam.É, antes de tudo, um confronto pessoal com aquilo que aprendi, e com aquilo que escolho não repetir.
Há uma história que não começa com sangue, começa com silêncio.No centro dela, uma mulher: a Virgem Maria. Elevada, intocável, pura. Um corpo sem desejo, uma maternidade sem carne. Um ideal que sobe aos céus, mas que, ao mesmo tempo, desce à terra como medida. E toda medida, quando imposta, vira régua. E toda régua, quando rígida, vira corte.
A Igreja Católica, ao longo dos séculos, não apenas rezou essa imagem, ela a organizou, a normatizou, a espalhou como linguagem de mundo. No período que chamamos de Idade Média, fé e lei caminharam juntas. O espiritual moldava o social. O altar dialogava com o tribunal. E nesse diálogo, o corpo da mulher foi sendo escrito, não por ela, mas sobre ela.
De um lado, a santa.
Do outro, a suspeita.
Ou pura, ou caída.
Ou Maria, ou Eva.
E nesse intervalo estreito, quase sem ar, a mulher real precisou caber.
O homem, por sua vez, foi sendo desenhado como centro: guardião, provedor, cabeça. Não apenas por força bruta, mas por legitimação simbólica. A hierarquia ganhou rosto sagrado. O poder deixou de ser só imposto, passou a parecer natural. Quase divino.Não se trata de dizer que tudo começou ali. O mundo já era desigual antes. Mas ali, naquele longo tempo em que a Igreja organizava não só a fé, mas o ritmo da vida, o machismo encontrou estrutura, discurso, continuidade. Ganhou raízes mais profundas do que a própria lei: raízes morais. E raízes morais são difíceis de arrancar.
Séculos passam. As roupas mudam. As cidades crescem. As leis se modernizam. Mas certas ideias permanecem subterrâneas, como se fossem parte da própria terra. A ideia de posse. A ideia de controle. A ideia de que o corpo da mulher deve responder a um olhar externo, seja ele de Deus, do marido ou da sociedade.Quando esse controle falha, quando essa posse é ameaçada, quando essa ordem invisível se rompe, a violência emerge.
E então, o que chamamos hoje de feminicídio não aparece como um acidente isolado. Ele pode ser lido como o ponto mais extremo de uma longa construção: a de um poder que, em algum momento da história, foi legitimado, reforçado, sacralizado.Não é uma linha reta. Não é uma causa única. Mas também não é um corte limpo. É um fio que atravessa o tempo.
Um fio que começa na idealização de um corpo impossível, passa pela domesticação de corpos reais e, em seus extremos mais sombrios, chega à destruição desses mesmos corpos quando eles ousam não caber mais na forma que lhes foi dada. E talvez o mais inquietante não seja apenas o passado, é o que ainda pulsa dentro de nós.
Porque, de onde eu falo, não falo de fora. Falo implicado. Como marido, como pai de duas mulheres, eu me vejo diante desse espelho incômodo: o de reconhecer em mim vestígios de um “DNA” que não escolhi, mas que me foi dado, pela sociedade, pela tradição, pela religião, pelo mundo visível e por tudo aquilo que se disse invisível e sagrado. Um código antigo, repetido por séculos, que ensinou o homem a ocupar, a controlar, a definir. E então a luta deixa de ser teórica. Ela vira íntima. Diária. Quase corporal.
Lutar para não reproduzir o gesto aprendido.
Lutar para não naturalizar o que foi imposto.
Lutar para desmontar, dentro de si, aquilo que o mundo ensinou a construir.
Não é simples. Não é limpo. É conflito. Um conflito que talvez já pudesse ter sido superado, mas que ainda resiste, mesmo num tempo em que a informação circula, em que vozes se levantam, em que mudanças acontecem. Aqui no Brasil, e de forma dolorosamente visível em lugares como o Ceará, onde moro, a violência contra a mulher insiste em aparecer. Às vezes a gente se pergunta: é porque agora vemos mais, ou porque acontece mais? Talvez as duas coisas. Mas nenhuma resposta alivia o peso do que se repete. E é por isso que chega um momento em que não basta compreender. É preciso romper. Rasgar esse código antigo. Queimar esse “DNA” simbólico que atravessou gerações. Recusar, conscientemente, aquilo que nos ensinaram a ser.
Eu venho de um tempo em que a informação era escassa, em que o pensamento vinha pronto, herdado, pouco questionado. Mas ainda assim, havia um gesto possível, e necessário: o de não se curvar ao pensamento medieval que insiste em sobreviver dentro do moderno. No fim, talvez seja isso: não aceitar como destino aquilo que foi apenas construção. E ter coragem de interromper a história, para que outras não precisem terminá-la em silêncio.
* Para minha mãe, que nunca fugiu da vida, que, desde sempre, antes mesmo de entender o mundo, já precisava enfrentá-lo. Se hoje eu questiono, é porque antes ela resistiu.

