HISTÓRIAS P1

Resolvi começar uma série contando algumas experiências que tive, e ainda tenho, com pessoas do meu convívio. Vizinhos, conhecidos, profissionais, gente que encontro pelo caminho. Às vezes, uma conversa aparentemente banal revela muito mais sobre a sociedade do que um livro inteiro. Certa vez, no hall do meu condomínio, estávamos fazendo cadastro e biometria para um novo sistema de segurança.Um vizinho tinha dois carros, mas seu apartamento tinha apenas uma vaga. O novo sistema permitia uma tarjeta de acesso por unidade. Ele queria comprar duas. Custava uma mixaria. Mas a regra era uma.

Ele começou a reclamar. Olhei para minha mulher e disse, em voz alta:

“Isso são as contradições do capitalismo.”

Ele se sentiu ofendido. E aí estava justamente a graça da coisa.Ele parecia acreditar que capitalismo significava: tenho dinheiro, portanto posso comprar o que quiser. Não. Nem no capitalismo funciona assim. Você pode ter dinheiro para comprar dez carros, mas não pode comprar dez vagas se o condomínio só lhe dá uma. Pode ter dinheiro para comprar um apartamento, mas não pode comprar o direito de ocupar o apartamento do vizinho. Pode ter dinheiro para comprar um jatinho, mas não pode comprar o espaço aéreo inteiro. O dinheiro amplia suas possibilidades. Não elimina as regras, a escassez, os contratos, as instituições e os interesses dos outros.

E Marx passou boa parte de O Capital justamente analisando as contradições existentes nas relações entre mercadoria, dinheiro, trabalho e capital. A conversa, porém, ficou mais interessante. O homem me disse que era psicólogo de uma grande empresa de saúde e começou a defender com unhas e dentes a lógica empresarial. Em seguida, afirmou que Marx havia sido uma “aberração da humanidade”, que nada do que ele escreveu havia funcionado e que, sem empresários, o mundo não seria nada.

Foi aí que pensei: talvez o problema não seja ser contra Marx.

O problema é ser contra Marx sem ter lido Marx. E há uma ironia ainda maior.Ele trabalhava justamente dentro de uma estrutura empresarial que, explorava a niveis alarmantes seus “associados” e tinha inúmeros problemas judiciais. Mas sua indignação contra Marx era muito maior do que qualquer indignação contra as ações injustas e criminosas da empresa no qual ele trabalhava.

Isso me fez pensar numa coisa:

É possível ser extremamente crítico ao socialismo sem conhecer Marx. Assim como é possível defender o capitalismo sem compreender como ele funciona.

Eu não defendo ditadura, autoritarismo ou a repetição mecânica das experiências históricas chamadas de socialistas. Defendo a discussão de políticas públicas que reduzam desigualdades e ampliem oportunidades. O Bolsa Família é um exemplo. O dinheiro chega à população pobre, mas não fica parado: transforma-se em comida, roupa, remédio, serviços e consumo. Estudos do Banco Mundial encontraram efeitos positivos sobre a economia local, inclusive emprego formal, e estimaram efeito multiplicador de 2,16 nas regiões onde o programa se expandiu.

Ou seja: ajudar o pobre não é necessariamente tirar dinheiro da economia. Muitas vezes é justamente colocá-lo para circular. Talvez aquela pequena tarjeta de dez reais tenha me ensinado mais uma vez uma coisa que Marx já sabia:

o capitalismo é muito mais complexo do que “tenho dinheiro, então posso comprar tudo”.

E talvez antes de chamar Marx de “aberração”, fosse interessante fazer uma coisa simples:

ler Marx.

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