Quem está pensando por você?

Alienação, idiotés e a crise do pensamento político

Essas ideias, quando colocadas lado a lado, produzem uma reflexão poderosa sobre o nosso tempo.

O idiṓtēs abandona a esfera pública. O alienado abandona, de certo modo, a si mesmo. Um deixa de participar da construção da realidade coletiva; o outro deixa de exercer plenamente a própria capacidade de pensar. E talvez uma das grandes tragédias políticas do século XXI seja justamente a combinação dessas duas formas de afastamento: pessoas que deixam de participar criticamente da vida pública ao mesmo tempo em que entregam a terceiros a tarefa de interpretar o mundo por elas.

Isso não significa que pertencer a uma religião, a um partido, a uma profissão, a uma comunidade ou a qualquer outro grupo seja, por si só, um problema. O ser humano é um ser social e constrói sua identidade por meio de vínculos. O problema aparece quando o pertencimento deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar como uma prisão intelectual.

Há uma pergunta que talvez seja mais importante do que aquela que costuma dominar as conversas políticas: em quem você vota? A pergunta verdadeiramente incômoda poderia ser outra: quem está pensando por você?

Em Política para não ser idiota, Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro recuperam o sentido original da palavra grega idiṓtēs. Na Grécia antiga, o termo não designava simplesmente alguém intelectualmente limitado, como fazemos hoje. Referia-se àquele que se ocupava exclusivamente de seus assuntos particulares e se afastava da vida pública. Cortella, por sua vez, trabalha com a ideia de alienação como uma espécie de estar “fora de si”: afastado da própria autonomia, da capacidade de refletir sobre a realidade e de participar conscientemente da construção coletiva.

É nesse momento que surge a bolha. Uma bolha política, religiosa, profissional ou social não precisa necessariamente impedir alguém de acessar informação. Ela pode fazer algo muito mais sofisticado: permitir o acesso apenas àquilo que confirma aquilo em que a pessoa já acredita.

A notícia que confirma minhas convicções é verdadeira antes mesmo de ser verificada. A informação que contradiz minhas crenças torna-se “fake news”. O argumento do adversário deixa de ser analisado e passa a ser desqualificado pela identidade de quem o apresenta. O questionamento deixa de ser instrumento de conhecimento e passa a ser tratado como traição. É assim que a autonomia começa a desaparecer.

O problema não é a fé. Uma pessoa pode ter uma profunda experiência religiosa e, ao mesmo tempo, manter absoluta autonomia política. O problema começa quando a autoridade religiosa passa a substituir a consciência individual; quando o líder religioso deixa de ser alguém que orienta sua comunidade espiritualmente para tornar-se intérprete obrigatório da realidade política; quando discordar do líder passa a significar, para o fiel, desobedecer a Deus.

A mesma lógica pode aparecer fora da religião. Pode acontecer com o empresário que enxerga toda política exclusivamente pela ótica do mercado. Pode acontecer com o professor que transforma sua corrente teórica em explicação universal. Pode acontecer com o militante que considera qualquer crítica ao próprio campo uma traição. Pode acontecer com o profissional que reduz todas as questões sociais aos interesses de seu grupo. E pode acontecer com o eleitor que transforma um político em parte inseparável da própria identidade. Nesse último caso, a política deixa de ser uma escolha e passa a ser uma forma de pertencimento.

O fenômeno é particularmente perigoso porque a pessoa não necessariamente sente que perdeu a autonomia. Ao contrário: costuma acreditar que finalmente “entendeu tudo”. A bolha produz uma sensação de certeza. Ela elimina a dúvida, simplifica o mundo e oferece respostas para problemas complexos. E respostas simples são extremamente sedutoras em épocas de insegurança. Talvez seja por isso que a atual crise do pensamento político não possa ser compreendida apenas como uma crise dos partidos ou das instituições. É também uma crise da capacidade de conviver com a dúvida, com a complexidade e com a diferença.

Os indicadores internacionais ajudam a dimensionar o problema. O relatório Freedom in the World 2026, da Freedom House, registrou que a liberdade global caiu pelo vigésimo ano consecutivo em 2025: 54 países tiveram deterioração em direitos políticos e liberdades civis, enquanto apenas 35 apresentaram melhora. O mesmo relatório aponta que liberdade de expressão, liberdade de imprensa e devido processo estão entre os campos que mais se deterioraram nas últimas duas décadas. O V-Dem Democracy Report 2026 chega a conclusões igualmente preocupantes. Segundo o estudo, ao final de 2025 havia 92 autocracias e 87 democracias no mundo, e 74% da população mundial vivia em autocracias. O relatório também identifica uma deterioração da liberdade de expressão em 44 países durante 2025.

Esses números não significam que o mundo tenha simplesmente deixado de acreditar na democracia. Significam algo talvez mais complexo: a democracia deixou de ser uma condição adquirida e passou a ser novamente um campo permanente de disputa.

É nesse ambiente que cresce o autoritarismo. E é justamente aqui que precisamos ter cuidado com as palavras. Nem todo movimento de extrema direita é fascista, e o fascismo histórico não pode ser simplesmente transportado para o século XXI como se nada tivesse mudado. O fascismo original surgiu em circunstâncias históricas específicas, com características próprias. Entretanto, estudos contemporâneos vêm investigando a permanência e a transformação de elementos fascistas e neofascistas na política atual.

Um estudo publicado pela Cambridge University Press em 2025, por exemplo, analisa especificamente o neofascismo no Brasil e suas conexões com a extrema direita, a nova direita e o bolsonarismo. Outro trabalho recente da mesma universidade utiliza a expressão “fascist zeitgeist”, uma espécie de “espírito do tempo fascista”, para descrever não uma simples repetição do fascismo histórico, mas um ambiente político no qual ideias autoritárias, nacionalismo excludente, nostalgia autoritária e símbolos antes restritos às margens passam a ocupar espaços mais amplos no debate público. O próprio estudo alerta que isso não significa classificar automaticamente os atores contemporâneos como fascistas. Essa distinção é fundamental.

O perigo contemporâneo talvez não esteja apenas na existência de movimentos que defendem explicitamente regimes autoritários. Está também na normalização gradual de determinadas formas de pensamento autoritário.

É quando a violência política passa a ser justificada como necessária.

Quando adversários deixam de ser adversários e passam a ser inimigos.

Quando instituições democráticas são consideradas legítimas apenas enquanto produzem o resultado desejado.

Quando a imprensa só é aceita quando confirma minhas convicções.

Quando a mentira deixa de ser um problema moral porque “o meu lado” está mentindo para uma causa que considero justa.

Quando a figura do líder se torna mais importante do que as instituições.

Quando a fidelidade substitui a argumentação.

Quando a identidade substitui o pensamento.

É nesse ponto que a reflexão de Cortella e Janine Ribeiro encontra a crise política contemporânea. Porque uma democracia não depende apenas de eleições. Ela depende de cidadãos capazes de exercer julgamento próprio. A democracia exige indivíduos dispostos a ouvir, comparar, duvidar, verificar, discordar e, principalmente, admitir a possibilidade de estarem errados. Sem isso, a democracia pode conservar suas urnas e perder seu espírito.

O fenômeno das redes sociais torna tudo ainda mais complexo. O ambiente digital permite que cada pessoa construa uma espécie de realidade personalizada, na qual algoritmos, comunidades e influenciadores reforçam determinadas visões de mundo. A Freedom House registrou em 2025 o décimo quinto ano consecutivo de deterioração da liberdade na internet, observando o crescimento de censura, vigilância e manipulação do ambiente informacional.

Assim, a alienação contemporânea não precisa mais acontecer pelo silêncio. Ela pode acontecer pelo excesso de informação. Somos bombardeados diariamente por opiniões, vídeos, manchetes, memes, discursos, cortes, indignações e certezas. Mas informação não é sinônimo de conhecimento. E conhecimento não é sinônimo de pensamento crítico. Ter mil opiniões à disposição não significa pensar. Às vezes significa apenas escolher qual narrativa confirma aquilo que já queríamos acreditar.

É por isso que a pergunta “quem está pensando por você?” se torna tão importante.

Talvez o grande desafio político do nosso tempo não seja apenas escolher entre esquerda e direita, conservador e progressista, liberal e socialista. Antes disso, é preservar a capacidade individual de pensar sem transformar o outro em inimigo. Isso exige uma espécie de disciplina intelectual: desconfiar inclusive das próprias certezas; ouvir argumentos que incomodam; verificar informações que reforçam nossas convicções; distinguir fatos de opiniões; separar crítica de ódio; e compreender que nenhuma liderança política, religiosa ou intelectual deveria possuir o monopólio da verdade.

O verdadeiro oposto da alienação talvez não seja simplesmente a informação.

É a autonomia.

E o verdadeiro contrário do idiṓtēs talvez não seja alguém que sabe tudo sobre política, mas alguém que compreende que a vida pública também é sua responsabilidade. Porque política não é aquilo que os outros fazem enquanto cuidamos das nossas próprias vidas. Política é justamente a dimensão coletiva da nossa existência. Quando abandonamos essa dimensão, outras pessoas passam a ocupá-la em nosso lugar. E quando entregamos a essas pessoas não apenas nosso voto, mas nossa capacidade de julgar, criticar e questionar, deixamos de ser cidadãos para nos tornarmos seguidores. Talvez seja aí que a alienação encontre sua forma mais perigosa: não quando alguém impede você de pensar, mas quando consegue fazer você acreditar que está pensando por conta própria enquanto apenas repete aquilo que sua bolha ensinou.

No fim, a pergunta permanece.

Você está pensando por conta própria? Ou apenas reproduzindo, com absoluta convicção, aquilo que alguém decidiu que você deveria pensar?

Nota de rodapé: E aí me fizeram uma pergunta que ficou martelando em mim: e a tua bolha? Confesso que não tenho uma resposta pronta. Enquanto escrevia tudo isso, percebi que também estou dentro de alguma bolha, só não sei ainda enxergá-la completamente. Eu também me deixo seduzir por informações que fazem sentido para mim, por ideias que confirmam aquilo que já penso. Às vezes escolho um caminho e, no entusiasmo de acreditar nele, deixo de olhar com a mesma atenção para os caminhos dos outros. Talvez eu também esteja, em alguma medida, fazendo exatamente aquilo que critiquei no texto. E isso me inquieta. Porque, no meio de tanta informação, tanta versão e tanta certeza, às vezes já não sei se estou procurando a verdade ou apenas aquilo que consigo reconhecer como verdade. Talvez pensar por conta própria seja justamente isso: desconfiar também de si mesmo, escutar o outro sem necessariamente adotá-lo e ter coragem de admitir que aquilo em que acredito hoje pode não ser a verdade inteira.

Compartilhe este artigo:

Artigos relacionados