Fernando Pessoa escreve que “o mito é o nada que é tudo” porque compreende algo essencial: o mito não surge da força, mas da ausência. Ele aparece quando os fatos já não bastam, quando as instituições perdem credibilidade e quando a realidade deixa de oferecer sentido. O mito não precisa ser verdadeiro, precisa ser necessário.
No Brasil recente, o campo político tornou-se um espaço de decepção contínua. Escândalos, promessas quebradas e um sentimento difuso de abandono produziram um vazio simbólico profundo. Nesse terreno esvaziado, qualquer figura que se apresentasse como ruptura, ainda que sem projeto claro, poderia ser investida de significado. Quanto menos conteúdo, mais espaço para projeção.
É nesse ponto que o “nada” se torna tudo. Um personagem pouco conhecido, apresentado como outsider, passa a funcionar como tela em branco. Não importa tanto o que ele é, mas o que representa. Para alguns, ordem; para outros, vingança; para outros ainda, autenticidade ou coragem. O mito não se impõe, ele é construído coletivamente pela necessidade de acreditar em algo.
Pessoa nos ajuda a entender que o mito não engana apenas por mentira, mas por simplificação. Ele reduz a complexidade do mundo a narrativas fáceis, transforma problemas históricos em inimigos morais e substitui o pensamento político por adesão emocional. O mito organiza afetos, não soluções.
O risco surge quando o mito, criado para preencher o vazio, precisa enfrentar a realidade concreta. Governar exige escolhas, limites, contradições, tudo aquilo que o mito não suporta. O “nada” que era tudo começa a revelar sua fragilidade, e a imagem construída entra em choque com os fatos.
Assim, a lição pessoana permanece atual: povos que abrem mão de projetos acabam adotando símbolos; sociedades que abandonam a crítica se entregam à mitologia. O mito não nasce porque alguém é extraordinário, mas porque muitos estão desiludidos. E enquanto o vazio persistir, novos mitos continuarão a surgir, não para resolver a história, mas para adiá-la.

