Quando uma democracia começa a se desfazer, ela não anuncia o próprio fim. Não há um momento exato, nem um grande rompimento visível. O que existe é um desgaste contínuo: instituições desacreditadas, direitos relativizados, mentiras repetidas até parecerem normais. A democracia não morre de repente, ela vai sendo esvaziada.
O primeiro direito que se perde não é o voto, mas a confiança. Confiança na imprensa, na Justiça, nas eleições e no próprio Estado. Sem essa confiança, a participação política se enfraquece e o espaço público é tomado pelo medo, pela desinformação e pelo ressentimento. A liberdade de expressão passa a ser confundida com licença para atacar, e o debate vira confronto.
À medida que esse processo avança, outros direitos começam a cair em cadeia: a liberdade de imprensa é atacada, a oposição passa a ser tratada como inimiga, minorias deixam de ser protegidas e o Judiciário se torna alvo constante. Tudo isso é feito, muitas vezes, em nome da “ordem”, da “moral” ou da “segurança”. O Estado autoritário se apresenta como solução, prometendo estabilidade, mas entrega controle, vigilância e silêncio.
Esse fenômeno não é exclusivo de países historicamente frágeis. Nos Estados Unidos, uma das democracias mais antigas do mundo, vimos nos últimos anos ataques sistemáticos à imprensa, o questionamento da legitimidade das eleições, a politização extrema das instituições e a normalização da violência política. Quando líderes passam a desacreditar o próprio sistema que os elegeu, a democracia entra em estado de alerta.
No Brasil, o risco também foi real. Durante o governo Bolsonaro, discursos contra o Supremo Tribunal Federal, ataques às urnas eletrônicas, ameaças veladas de ruptura institucional e a constante mobilização do medo criaram um ambiente propício à erosão democrática. Mesmo sem um golpe consumado, os sinais estavam ali: quando o poder começa a testar os limites da democracia, é porque já não reconhece seus freios.
O que vemos no Brasil e nos Estados Unidos se repete em outras partes do mundo. Na Hungria, a imprensa foi capturada pelo governo. Na Turquia, o Judiciário perdeu autonomia. Na Venezuela, eleições passaram a existir sem garantias reais. Na Rússia, a oposição foi criminalizada. Em todos esses casos, o roteiro é semelhante: líderes eleitos utilizam a própria democracia para desmontá-la por dentro.
O mais perigoso desse processo é que ele costuma ser acompanhado por apoio popular. Quando a população aceita abrir mão de direitos em troca de promessas de ordem e segurança, a democracia já está em risco. Porque, ao contrário do que se promete, regimes autoritários não garantem liberdade, nem justiça, garantem obediência.
Defender a democracia não é defender um governo, um partido ou uma ideologia. É defender a possibilidade de discordar sem medo, de votar com confiança, de viver sob leis que protegem todos, e não apenas os que estão no poder. Quando a democracia chega ao limite, o que se perde não é apenas um sistema político, é a própria dignidade da vida pública.
Para quem quiser aprofundar:
📚 Como as Democracias Morrem — Steven Levitsky & Daniel Ziblatt
📚 Twilight of Democracy — Anne Applebaum
📚 1984 — George Orwell
📑 Relatórios da Freedom House e do V-Dem Institute sobre retrocesso democrático no mundo

